Fui ver “Homem com H”, filme de Esmir Filho sobre o Ney Matogrosso que está nos cinemas. Um dos pontos centrais da obra é a relação conflituosa que Ney tem uma boa parte da vida com o pai, mesmo tendo saído (sido expulso) de casa novinho. A saída ou expulsão de casa é um tema de reflexão que me persegue. Tenho grande interesse em tentar entender como esse rito de passagem nos afeta e transforma. Quem veio parar em São Paulo sem ser daqui convive, imagino, assim como eu, com uma maioria de forasteiros. Gente que escolheu esse lugar. Suspeito que essa escolha, para onde vamos?, está entre as mais importantes que fazemos em nossas vidas. Mais que isso, confio que não é à toa que tanta gente vem parar em certos lugares, que não são só dinheiro e trabalho o chamariz. Têm cidades vocacionadas para receber uma fauna tão diversa de seres humanos. São Paulo, certamente. E é o encontro de uma pessoa com uma cidade que faz nascer esse novo ser que precisa nascer. Que permite que a vida aconteça.
A ruptura com a casa dos pais é um processo às vezes lento, às vezes abrupto, quase sempre difícil para todos os envolvidos e de natureza imperativa. Não há alternativa. É uma das muitas mortes que vivemos, e por isso mesmo um dos muitos nascimentos que nos aguardam. Não me refiro apenas à saída da casa física dos pais, mas sim à fuga de nossa terra natal, ao desgarrar-se, a experimentar ser ninguém, começar tudo de novo, não entender até entender os códigos do novo lar e conciliar-se com essa ignorância, à experimentação de novas e autênticas maneiras de ser (talvez pela primeira vez, de verdade), eventualmente achar nosso bando (novamente, talvez pela primeira vez, de fato) e, mais que tudo, refiro-me a ir ao encontro da humildade, que também nos aguarda do outro lado do espelho.
Mudar nos obriga a amadurecer, nos ensina a viver as separações da vida para as quais não há alternativa e nos dá muita porrada onde é bom apanhar: no ego e no autoengano. E que fique bem claro: quanto mais esse migrante tiver sido “alguém” em sua respectiva terra natal (big fish in a small pond, um peixe grande num lago pequeno), maior será o tombo e, por isso mesmo, mais benéfica será sua ocorrência. Para quem era humilhado em outro canto, chegar aqui costuma ser um alívio. De ambas as experiências nascem novos mundos, universos e entusiasmos. É semeadura para a vida toda.
Em comum, nós emigrados temos o êxodo e o aprendizado da travessia. Cada um traz consigo, da parte do país que o expulsou, pelo motivo que for, seu arsenal de sobrevivência e contribuição para a perpétua transformação de… São Paulo, por exemplo. O tempo passa, mas a gente nunca se desfaz completamente da província que traz dentro de si. Sigo aprendendo o que ainda trazer comigo e do que posso ir me despindo por não servir mais, como uma blusa velha que já não me cabe. Ou até, cá para nós, como uma daquelas que nunca nos couberam, a gente que forçou a barra e fingiu que dava para usar. Assim como na criação artística, na vida também a subtração libera espaço para a soma. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Na música, é no silêncio entre duas notas que vive o mistério, é ele que dita o ritmo. Subtração pode ser multiplicação.
No documentário “Zero Gravity”, Wayne Shorter diz que a vida tem dois grandes acontecimentos: primeiro, o dia em que nascemos e segundo, aquele em que descobrimos por quê. Para virar quem a gente tem que ser, a distância geográfica importa muito, pois o deslocamento altera nossa perspectiva e a distância da família afrouxa o cordão umbilical. É uma retirada de antolhos para se começar a ver o mundo com olhos mais livres. Muitas vezes a migração geográfica e o distanciamento do porto seguro implicam também numa migração de classe social e, certamente, em perrengue de várias naturezas. Com certa brutalidade, descobrimos que não temos ninguém a quem recorrer até que encontremos nossa comunidade. O pertencimento não virá do nada, terá que ser conquistado e cultivado. É duro, mas edificante; o que forja caráter é adversidade. No fundo, é como qualquer outro músculo que deve ser exercitado para se fortalecer. E quanto mais cedo se vive essa fricção de visões de mundo e alquimia de gentes maiores as chances de metamorfose. Até porque, nas palavras do escritor francês Édouard Louis, “a ingenuidade é uma condição para a fuga. Sem ingenuidade não se foge”.
Ney, ave rara, indomável e com um desejo irrefreável de vida, deixou Campo Grande para morrer e renascer, morrer e renascer muitas e muitas vezes até virar Matogrosso, a pessoa que ele escolheu ser. Zé Celso, nosso amado diretor, deixou Araraquara para vir estudar em São Paulo e foi na faculdade que conheceu o bando de atores com quem criou o Teatro Oficina, experimentando inúmeras mortes e vidas em 86 anos de existência corpórea. É o caso de muitos e muitos artistas que a província ejeta – e com brio a gente aproveita a propulsão para cair fora. Pueblo chico, infierno grande, cidade pequena, inferno grande. Sem coragem, nem Zé, nem Ney, nem nós teríamos virado quem somos e o mundo não seria o mesmo. Cada pessoa que se liberta abre uma nova vereda por onde outros podem passar.
Para nós, esquisitos do mundo, pessoas não normativas, artistas ou não, a verdade é que o anonimato de São Paulo nos protege. E esse hábitat urbano e hostil à primeira vista apresenta condições mais que propícias para se viver em modo de aprendizado perpétuo e perene, além da probabilidade elevada de que ocorram aqui os encontros mais mágicos e transformadores de nossas vidas. A nós cabe apenas reconhecer essas oportunidades e lhes dizer sim. É, eu diria, a vocação de São Paulo, o que ela tem de melhor. Qui se ressemble, s’assemble, quem se assemelha, se junta – mesmo gente muito diferente uma da outra. No Teatro Oficina, onde encontrei meu povo, sei que tudo isso é verdade há 67 anos – e que esse teatro não seria possível em outro lugar. Desde 1958, a Rua Jaceguai 520 é o axis mundi de muita gente que não tinha um.
Em 2008, a companhia remontou a primeira peça escrita pelo Zé, “Vento forte pra um papagaio subir”. Ele perguntou a uma pessoa amiga do público o que ela tinha achado do espetáculo e ouviu como resposta que a peça lhe evocara sensações e emoções fortes de como foi, para ela, sair de casa e vir para São Paulo. Ao que o Zé replicou: “a gente está sempre saindo de casa”. É um processo que nunca chega ao fim, como um barbante que arrebenta aos pouquinhos, fiapo por fiapo. Até deixarmos nossa primeira e última morada, que é o corpo. A humana aventura. A terrena finalidade.
Post Scriptum: Axé Zé, Denise Assunção e Cathérine Hirsch, nossos ancestrais encantados que voaram para bem longe do ninho que os pariu e aqui cocriaram um ecossistema que inaugurou vidas, germinou a terra e segue multiplicando-se em colheitas. Que a nova geração de jovens esquisitos de todos os cantos encontre também uma pista de pouso para sua nave espacial, aqui em São Paulo de preferência.

Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com
Leia outros textos da artista:
Gaveta Azul: “Vermelho-Terra”, uma coluna de Maria Bitarello
Gaveta Azul: “A bondade de estranhos”, uma coluna de Maria Bitarello
Texto maravilhoso! A Maria lida com as palavras e as emoções com uma desenvoltura incrível! Vá em frente que atrás de você tem gente!